Seriam tanques de guerra realmente mais importantes do que pêras? Com o passar do tempo, Karel percebeu que a resposta não seria tão óbvia quanto pensara, e começou a secretamente simpatizar com o ponto de vista de Mamãe: uma gigantesca pêra em primeiro plano, e, em algum ponto distante, um tanque, minúsculo como uma joaninha, pronto para a qualquer momento voar e desaparecer. Então Mamãe estaria certa, no final das contas: tanques são efêmeros, pêras são eternas. (M. Kundera)

Quinta-feira, Junho 25, 2009

Inferno astral e so long, Jacko

Eu estou genuinamente triste porque Michael Jackson morreu.

E genuinamente PAU DA VIDA porque perdi uns 30 minutos escrevendo sobre COMO COISAS IRRITANTES RANDÔMICAS ESTAVAM ACONTECENDO CONTINUAMENTE ESTA SEMANA (E ESPECIALMENTE HOJE) E COMO EU ESTAVA EXTREMAMENTE INTOLERANTE A ELAS.

E perdi, distraidamente, o conteúdo do texto fazendo uma pesquisa besta que me tomou a atenção de forma despropositada e me fez fechar a janela do editor sem salvar as alterações (sequer percebi que isso me foi solicitado de alguma forma).

Vocês jamais compreenderão como esta experiência que tive, neste momento, foi profundamente meta-irritante. Só eu conheço o texto perdido e sei o quanto tê-lo descartado sem querer significa um sinal dos céus de que hoje é um dia para eu realmente berrar muitos palavrões abafados no travesseiro.

Quarta-feira, Abril 08, 2009

pausa, graças.

Ando tendo umas semanas cansativas. Acordando cedo demais e abusando de corpo e alma, literalmente. O que faço melhor é preservar a alimentação saudável (ômega 3 às pencas e um dia meu desafio constante a Murphy finalmente me fará pagar por comer peixe cru tão indiscriminadamente, com tanta freqüência), e nem digo leve; os outros hábitos de cuidados seguem mal-e-mal a sombra do que já foram.

Esta noite é uma brecha e parece presente que eu a esteja passando a sós, cercada de muita chuva e de resto, silêncio. Não que não aprecie companhia, inda mais a que normalmente tenho nestas horas, mas o descanso é atividade que, quando demasiado necessária, se deve praticar quieto -- é egoísta e exige a intimidade máxima da solidão.

Poucos parágrafos porque o tempo pedia, coisa de escritor amador cafona que não resiste ver poesia em temporal; está de bom tamanho, agora é hora do encontro com a cama; finalmente longo como se deve.

Domingo, Abril 05, 2009

Comfort food

Esta é uma proposta bem fácil de preparar, razoavelmente inventiva, nutritiva, de baixa caloria, colorida e bastante saborosa. Sigam-me os bons.

- Purê de maçã. Receita: cozinhar as maçãs (duas das bem grandes servem facilmente duas pessoas) sem sementes e descascadas, juntamente com as cascas e uma colherzinha talvez de açúcar (eu usei, mas vou testar sem -- acho que é dispensável). Bater bem, com uns 200 ml de suco de laranja (eu bati com um pouco de casca também, mas a maior parte realmente foi para o lixo). Deixar a mistura na panela, apurando até o ponto desejado, salgando a gosto (cuidado para não estragar o adocicado maravilhoso).

- Uma salada de tiras finíssimas de abobrinhas, aipo, tomates e alho-poró. A proporção fica a critério do chef mas eu recomendo dar importância às abobrinhas e tomates. Forrar uma peneira com bastante manjericão e hortelã frescos e disponha os legumes por cima (não se esqueça de abafar com uma tampa). Daí... tcharans... cozinhar os legumes no vapor do purê de maçã que apura. As tiras dos legumes cozinharão no vapor de laranja e maçã, passando através das ervas antes de penetrar nos legumes. Salgue levemente e ao servir não se esqueça de um fiozinho de azeite.

- Filezinhos de peixe fritos na manteiga, ao leite de côco com curry. Se o peixe for mais forte, como o atum, já sugiro apenas grelhar (deixando o meio mais cru -- hmmmmm...); se tratar-se por exemplo de uma pescadinha, como foi o meu caso, aplica-se então o molho sugerido. Frite os filés em uma colher de manteiga, e enquanto isso, adicione em outra panela 100 a 150 ml de leite de côco e polvilhe o equivalente a uma colher de sopa rasa de pó de curry (amarelo ou vermelho, a critério do cozinheiro).

O fim de semana pareceu mais feliz. A finalização escolhida foi um sorvete de iogurte com limão siciliano, cremoso, refrescante e soberbo em todas as características atribuíveis a tal sobremesa. A bebida pode ir desde uma refrescante água de côco até um vinho branco que eu não saberia escolher. Confesso que acabei me esquecendo dela.

Espero contribuir para a felicidade de algum solteiro em busca de uma experiência gastronômica solitária, prática e agradável (ou talvez de outras experiências e decorrentes da alimentar, quando em companhia de alguém mais interessante).

Domingo, Março 08, 2009

armazenagem

Descobri agora que o iPod Touch não permite -- ao menos, a rigor -- a armazenagem de arquivos ao estilo pendrive, ao contrário dos outros modelos, como o Classic ou o Shuffle. Achei isso bastante irritante porque não vejo motivo para ficar entupindo a maquineta de vídeos -- eu não devo assistir, como regra geral, a filmes e episódios de seriados de televisão na telinha minúscula. Como disse David Lynch, a tradução atenuando uma certa deselegância diante das novas tecnologias portáteis de comunicação e reprodução de mídia, "é uma grande tristeza que você pense que assistiu a um filme em seu telefone".

Falando em David Lynch, é nele mesmo que ando pensando quando esbarro nesta questão da transferência de arquivos. Baixei as duas temporadas de Twin Peaks, mais uns extrazinhos daqui e dali, para os fins de semana tediosos. Ao invés de gravá-los num DVD, prefiro gravar os arquivos no notebook -- e precisava de uma pendrive robusta, que eu achava que o Touch poderia substituir. Bem. Paciência.

Para quem não conhece, Twin Peaks foi uma série para televisão mutcho-loca, exibida no início da década de 90, altamente viajante, envolvendo sonhos com anões dançarinos e introduções profundamente estranhas da Senhora do Tronco, girando em torno do assassinato brutal de uma adolescente popular em uma cidade do interior, investigado por um agente do FBI interpretado pelo preferido do diretor, Kyle McLahlan. Eu e meu namorado, em um longo carnaval passado (não o último), dedicamo-nos aos primeiros 9 episódios e não conseguimos alugar os demais em nenhum outro lugar.

A série foi inteiramente pensada para a tela da televisão -- e isso se mostra em cenas com fotografia fantástica, aproveitando ao máximo a verticalidade da imagem, e uma câmera cuidadosa. A trilha sonora de Angelo Badalamenti é também um ponto forte do trabalho. Lynch trabalha equilibrando-se sobre a não-linearidade que adora e as necessidades de uma trama policial que, como tal, apresenta-se como um quebra-cabeças a ser continuamente preenchido.

Bem, bem. A pendrive robusta, boa e velha, já fez seu trabalho. Incluo mais uma reclamação no rol das já existentes quanto a estes novos e pequenos produtos Apple: vamos combinar que esses espaços de armazenagem, amigo Jobs, não são lá de toda essa utilidade se restritos a arquivos que você só pode acessar no iPod. Haja saco para ouvir música. E pensar que assistiu a filmes.

Domingo, Março 01, 2009

as liquidações e o caranguejo

Há mais de um mês há liquidações inacreditáveis de moda por toda a cidade. Estou enlouquecendo pois a crise econômica mundial também me afetou; não é momento para contrair dívidas superficiais como ROUPAS SAPATOS BOLSAS!!!!, mas por outro lado, se não for agora, só Julho; estou decidida a não renovar o closet fora das promoções. E então. Que fazer?

Bem, o que andei fazendo por esses dias foi limitar as compras, se não me engano (pode ter havido mais algum desatino) a um lindo colete verde de corte elegantérrimo por uma bagatela, e a uma sandália cobra absolutamente irresistível. Estas compras foram incontroláveis; o sangue frio a que me obriguei por meses para finalmente adquirir estas peças não podia ter sido em vão, afinal de contas. Explico: já há um ano ou dois as lojas estão aderindo a pesados descontos nos finais de estação. Sabendo disso, este ano já comecei a me programar para as compras de Fevereiro: passei o período de Setembro a Janeiro cuidadosamente selecionando as peças e lojas que me interessariam quando a liquidação generalizada tomasse conta das ruas e shoppings. Isso exige um auto-controle profundo: o risco de se esgotarem os estoques no meu tamanho é relativamente alto, porque sou de medidas irritantemente comuns.

A fome torna difícil a continuação do assunto anterior (ou qualquer outro que não seja ela própria). Acordei há umas duas horas. Não tomei café da manhã -- apenas um café. Há uns 4 dias comprei caranguejo. Foi para uma salada que me saiu deliciosa: muito manjericão, a carne de caranguejo desfiada e levemente refogada com cebola e hortelã, folhas de alface. O molho era de mel, muito azeite, limão e uma colher de chá de um produto interessante que conheci recentemente, caviar de tomates secos; ficou delicado e levemente adocicado, extremamente refrescante, uma felicidade. A receita foi adaptada de uma que assisti pela televisão, num dos diversos programas apresentados pelo Jamie Oliver, e a original usava suco de grapefruit no molho, em lugar do limão e mel, e pimentas chili picadas, que excluí da história em honra de minha tia e em meu próprio prato substituí por doses cavalares de calabresa seca. Único porém é que não mata a fome. Acreditem: é obrigatoriamente entrada.

Enfim, isto tudo posto, há ainda manjericão e caranguejo em minha casa. Este último está congelado. Eu estava com o plano maligno de fazer um penne integral na manteiga com a carne delicada e a erva adocicada, acredito não haver necessidade alguma de outro molho que não também bastante azeite; estou contudo tomada de uma preguiça imensa que ainda, prolonga a fome e torna cada vez mais sofrido o preparo, se for de fato decidido. De qualquer forma não há grandes alternativas. O que fazer?

A pergunta é retórica. Não pretendo morrer de fome aguardando os comentários aconselhadores. Contudo, para efeito de mantermos a brincadeira, sintam-se à vontade para discorrer sobre as variadas maneiras com que lidam com as dificuldades decorrentes da preguiça de preparar o almoço em momento em que o organismo já implora por nutrição.

a biblioteca

Sexta-feira fui devolver livros a uma biblioteca. Já passavam 10 dias de atraso. Não eram meus; de meu namorado, que viaja. Ele ficará por tempo igual sem poder pegar novos emprestado. Antes de mais nada protesto em minha defesa que o pedido de que eu retornasse os volumes à casa foi feito de forma vaga e com antecedência exagerada, só podendo ensejar meu esquecimento completo do compromisso. De fato o que ocorreu foi o seguinte: 6 dias antes de viajar, ele me fez o pedido e reclamei pra cacete; o assunto não foi mais discutido e no dia de sua partida, ele largou uma pilha de livros em minha sala de estar. Agora, veja bem, você que está lendo tudo já encadeadinho pode achar que era ÓBVIO que tratava-se da devolução solicitada, mas eu, que vivi as situações e os dias, simplesmente pensei "puxa, como ele gosta de deixar tudo espalhado" e guardei os livros junto a outras coisas dele.

Ele me perguntou se havia devolvido faltando uns 2 ou 3 dias para o prazo se encerrar. Foi quando então percebi que os livros largados em minha sala de jantar eram os tais que eu havia tentado a todo custo evitar devolver. Houve um ligeiro debate quanto à justiça de minha desatenção mas, em todo caso, concordei em retorná-los à biblioteca. Daí evidentemente esqueci de fazê-lo no prazo, porque sou uma pessoa muito ocupada. Preciso me lembrar de fazer algo ao longo de duas semanas para efetivamente consegui-lo a tempo; LOOOOGO, entreguei com este período (até pouco menos!) de atraso. Mas tive meu castigo: chegando à biblioteca, que era perto o suficiente de meu trabalho para ser irritante pegar um táxi dali até lá, mas não tanto que fosse possível caminhar no calor dos infernos com a livrarada no lombo, tive a notícia de que o lugar só abriria dali a duas horas. Sumiu o chão sob os meus pés. Deu lugar a chamas de irritação profunda que me fariam dar pulos de raiva não fosse o peso que carregava.

Resolvi a questão indo almoçar com um colega em local próximo à biblioteca; obriguei-o a carregar o livro mais pesado, e assim se dividem os fardos da vida.

Segunda-feira, Setembro 08, 2008

Perdão é coisa séria; não se finge, nem se dá mais ou menos; é ou não é. Cruel o quase; para si, também. É preciso compreender o que é passível de aceitação; a negação de um exame sério de consciência nos impele a agir sem respeito a nossa própria lógica, fingindo repulsa ao perfeitamente possível e abraçando o verdadeiro inconcebível. Assim germinam, de relacionamentos os mais promissores, os fracassos retumbantes e prolongadamente torturantes, e a coisa acontece rápido, rápido.

Quinta-feira, Agosto 28, 2008

A lógica da etiqueta

Um apanhado arbitrário de situações em que as regras fazem sentido, mas não necessariamente são as que você espera

- A gentileza deve ser pró-ativa. Vivemos atualmente realidades complexas em que senhoras de 50 anos (vá à Barra da Tijuca se discorda) podem quebrar de porrada rapazes de 18 anos. Assim sendo, uma única regra simples de cessão de assento em veículos em movimento não se moldaria à sofisticação da paisagem fisicultural contemporânea. Critérios sugeridos: uso de acessórios de auxílio à sustentação e movimentação; gravidez evidente ou crianças de colo; análise de firmeza vis à vis circunferência de bíceps e coxas. Observe o ambiente a cada renovação substancial da população confinada à área correspondente a uma circunferência de raio de um metro e meio, buscando indivíduos qualificados a substituí-lo em sua cadeira.

- Homens devem abrir ao menos as portas pesadas para as mulheres, seja porque são usualmente mais fortes do que elas ou porque se não o são, deveriam fingi-lo.

- Homens devem deixar mulheres definirem o ritmo das caminhadas urbanas. Jamais devem forçá-las a confessar o terrível incômodo que o salto ou a costura exuberante de seus sapatos pode lhes estar causando.

- Em caso de que ambos ocupem o banco de trás, homens devem esperar que as mulheres sentem-se exatamente ao lado da porta do carro pela qual adentraram o veículo. Se as deixam entrar primeiro, devem fazê-lo pela porta oposta; isto se dá pois o tecido das roupas feminas é usualmente mais delicado (meias-calças) e o corte, mais complexo (saias curtas) do que os das vestimentas masculinas, sendo portanto de extrema indelicadeza obrigar uma dama a arrastar-se para o lado enquanto o varão de calças confortavemente se acomoda sem dificuldades.

- Homens devem auxiliar mulheres na descida do carro. Além das dificuldades já citadas na justificativa da regra anterior, não se deve esquecer a carga usual de bolsas e demais possivelmente numerosos acessórios que compõem seu vestuário, além do salto alto, todos fatores que tornam extremamente complexa a saída do veículo.

- Homens devem evitar deixar explícito que estão deixando de lado uma expressão grosseira em uma conversa ou reunião profissional devido a presença feminina no recinto. Se quer ser extremamente polido, deixe a esperteza rude de fora da conversa -- não a mencione, não implore de antemão o perdão das damas por sentir a profunda necessidade de proferi-la em seguida. Se acredita que o impropério é digno de menção, não faça as mulheres ao seu redor parecerem alienadas puritanas. Just let it out, brother.

Quinta-feira, Junho 05, 2008

Excerto

Minhas unhas descascam e tenho preguiça de tirar o esmalte e pintá-las novamente. Tenho muita preguiça, de uma maneira geral. Ando existencialista demais; tudo me soa desinteressante e desnecessário, todo interesse me parece artificial. Tento resolver isso montando uma rotina que me obrigarei a cumprir, mas ainda que eu própria tenha decidido por tomar esta medida, considero-a algo patética por justamente tratar-se de uma auto-imposição; me soa estranho, desconfortável que eu precise de artifícios para viver o que considero uma boa vida. A busca da satisfação deveria ser natural. Contraria-me um pouco o conceito de força de vontade; é como se a vontade fosse desvinculada de sua força, quando eu considero que só há vontade quando há força; do contrário, o que há é idéia.

Segunda-feira, Maio 26, 2008

pride

Por que teria que acreditar não ser amada, se não quero? Pois esses conselhos não fazem sentido algum, veja, perceba que tem assenhorado seu coração alguém que aproveita-se de sua fragilidade, aquela já percebeu que em você reside toda a diversão descompromissada de que precisa para fugir do cotidiano de que no entanto não deseja se livrar, sequer macular; daí todo seu sofrimento, veja o quanto é desimportante, mas é claro que não o notará: não há sentido em querer falsear o próprio desejo, ele existe e cega porque se acompanha-o rejeição, a dor é invariavelmente insuportável; daí as sinapses disfuncionais interrompendo a percepção antes que chegue a ferir o orgulho.

(eu poderia seguir com uma série de observações sobre solidão e a tinta borrada fresca em minhas unhas, nauseando-me e obrigando os dedos a cuidados irritantes ao trabalhar; não o farei, cafonérrimo.)

Terça-feira, Maio 06, 2008

uma quase raposa.

Nunca sei se a gema do ovo é amigável ou execrável; outro dia falando sobre seu teor de colesterol fui repreendida por um militante protéico qualquer afirmando que justamente esta que é a ex-futura-galinha é a fonte de todas as soluções para os problemas do mundo, inclusive tive a impressão de que se todos decidissem diariamente por alimentar-se destas promessas de pintinho coisas extraordinárias ocorreriam, como franceses pararem de falar bobagens auto-elogiosas ou americanos perceberem que a esta altura do campeonato eleitoral os democratas já se desgastaram demais e é irrelevante se o candidato à candidatura será o negro quase muçulmano ou a mulher totalmente corna.

De uma certa forma compreendo a necessidade do dogma; se ovos fossem alimentos inequivocamente desprezíveis como só o Patolino sabe dizer, minha única preocupação seria ceder ou não à terrível tentação. Mas não. Fui amaldiçoada por um mundo em que cientistas consagrados, obcecados por galináceos e sua pré-prole, diariamente renovam suas conclusões sobre gemas e claras; sou obrigada a compulsivamente atualizar-me quanto ao instável status sócio-oval se tiver algum interesse em manter-me viva e saudável caminhando por longos dias de cujo fim quero distância.

Faz-me falta o pecado, sabê-lo e sabê-lo errado. Sua ausência me exige demais: que descubra e contextualize e julgue, há momentos em que gemas são dispensáveis e talvez outros em que sejam cruciais. A coerência a que me obrigo então insiste em que os valores sobre os quais apóio as decisões a que sou obrigada para não morrer de fome tenham consistência superior a de uma casca, que esta à primeira bicada arreganha-se toda. Acabo pensando à beça, inclusive escrevo post; até agora, contudo, nada de ovo na pança.

Terça-feira, Abril 22, 2008

de quase-meio-de-ano

Acompanhada de um bloody mary caseiro nesta preciosa noite chuvosa de véspera de feriado, quase nua, solitária em meu lar semi-ordenado (alguns diriam um desperdício), tenho como principal resolução de ano novo beber mais destilados. Nada mais relaxante do que boas doses de álcool diluído em drinques de médio a baixo teor calórico, é o prazer absoluto e absoluta ausência de culpa; inclusive, a vodca é Absolut, e, aparentemente, começa a falar através de meus dedos sobre suas entorpecentes e irrefutáveis propriedades.

A decisão anterior acompanha a segunda, algo como fodam-se os hábitos saudáveis, comerei só o que tiver vontade e muito, muito pouco; o álcool mitiga a fome e perturba profundamente o metabolismo, de forma a catalisar a perda de peso que tanto almejo sem que precise abrir mão de um bom camembert; equilíbrio é o escambau, 6 refeições ao dia é para monges, vou comer meu queijinho e passar os três dias seguintes à base de sopa de aipo. E bloody mary para esquecer. Suco de tomate contém apenas 20 calorias a cada 200 mililitros. Você sabia?

Voltarei para a academia. Não porque preocupo-me com minha longevidade, mas sim pela exclusiva razão de que preciso ter a experiência de ser alucinantemente gostosa antes dos 25 anos, data a partir da qual começarei a minguar como os elfos anciões da Normandia e as mulheres em geral, exceção feita à Angélica (que por seus mid-twenties era bem cabeçuda). Malhando três a quatro vezes por semana e bebendo diariamente, minhas necessidades alimentares reduzir-se-ão a algo próximo de três colheres de chá de qualquer coisa e quatro a seis doses diárias de capuccino gratuito de máquinas de café ruins -- sem açúcar (não que o conceito tenha sido absorvido pelo fabricante da geringonça barulhenta).

Vou ouvir música e manter a iluminação em casa baixa. Reclamarei novamente do Presidente da República e dos economistas que não respeito por razões pessoais e denunciarei absurdos das mais variadas naturezas que só a mim importam. Vou trabalhar em casa à noite e nos fins de semana, ao menos de vez em quando, porque não vou fingir que não, mas só com a televisão ligada; ao menos quando me distrair conhecerei a história do fabuloso bebê de 1 ano e quase um metro de comprimento, ou a última irônica novidade sobre a cruzada ecológica contra os biocombustíveis (quando por um mero acaso estiver ligada em canal de notícias e não esperançosamente aguardando algum reality show sobre moda ou decoração de interiores). O bloody mary poderá participar de qualquer das situações descritas neste parágrafo sem a menor cerimônia.

Aumentarei a proporção entre o pensar em mandar indivíduos tomarem no olho do cú e o ato de tornar o desejo em palavra; para isto o bloody mary ajudaria, mas já se torna um amigo longínquo em muitas das situações em que necessário; resta-me o auto-controle, a impedir-me de resvalar em algo como uma patética timidez crônica e impulsionar-me a pronunciar os devidos caralhos.

Voltarei a escrever porque mais nobre do que diligenciar cronogramas e existir ao lado dos malditos outros (dou pano para a manga de quem me acusa de existencialista clássica) é voltar-me para a aleatoriedade de minhas questões pessoais, que, vamos combinar, se conheço alguma dúvida, outra que não uma dentre as que me habitam não deve ser a dita-cuja.

Quarta-feira, Outubro 17, 2007

Dos caprichos do riso

Um sorriso triste, que fique claro; por não ter sido percebido como tal não deixa mesmo de sê-lo. De tanto que amarrados, lixados e polidos foram os dentes, de tão vermelhos (excessivo para a manhã, diga-se de passagem) os lábios, pouco de atenção sobra para os olhos, e são eles os donos da verdade sobre os sorrisos (que a boca se ressinta o quanto quiser do que digo).

Olhos sorriem tristes quando morre um pedacinho de alma; esta última é avara em regenerações, e possivelmente por esta razão é que sempre corre ao seu par de janelas a lamentar cada ocorrência destas perdas de si, mas não sem orgulho: põe-se para fora distraindo o público ao atrair sua atenção para o movimento das bochechas que se contraem e músculos que se esticam e ossos que se mostram logo abaixo do nariz. Vejam que a alma é contudo moça de forte incoerência, pois nesse jogo de mostrar-se frágil e disfarçar-se riso, melindra-se ainda mais se a ilusão tem efeito sobre certas pessoas, a quem ela acredita serem obrigadas a observá-la com cuidado superior.

Hoje vestiu-se de preto certa alma para espiar pelos olhos que lhe serviam os daquela outra que lhe arrancou um pedaço (não fossem contidas por corpos inteiros, já se teriam retalhado mutuamente há tempos); a inevitável exibição ortodôntica teve êxito em ofuscar a tristeza que logo acima escapava dos globos transparentes apertados, e ainda mais agora, pela decepção em tão facilmente passar desapercebidos.

Quarta-feira, Outubro 10, 2007

Brincadeira com livros.

Estiquei o braço para pegar o primeiro livro da pilha ao lado da cama. Foi "O prazer do texto", Roland Barthes. A obra não cumpria com o pré-requisito básico da brincadeira: possuir 161 páginas. Parti para um dos que jaziam sob este primeiro: "A portrait of the artist as a young man", James Joyce.

A frase foi:

“Church Street chapel.”

Que brochante.

Seguem as regras para quem quiser participar da brincadeira:

1ª) Pegar um livro próximo (PRÓXIMO, não procure);
2ª) Abra-o na página 161;
3ª) Procurar a 5ª frase completa;
4ª) Postar essa frase em seu blog;
5ª) Não escolher a melhor frase nem o melhor livro;
6ª) Repassar para outros 5 blogs.

Repassarei para o Hermê, para o Dr. K, para o riozebratubo, para a ReB, e para o Edd. Só não sei quando.

Domingo, Setembro 16, 2007

Reflexões sobre reflexos

"All I can hear
I, me, mine,
I, me, mine,
I, me, mine"


Despertou-me reflexão profunda sobre a evolução da percepção de minha auto-imagem este desenho:



Em meus primeiros anos de vida, percebia-me como uma ema. Ema filha de três amebas, duas delas eram meu pai:



Papai não entende por que razão o pintava como dois; ameba compreendia, que pobre de mim, como poderia eu saber das extremidades alheias. Mamãe questiona a razão pela qual é retratada de cabeça para baixo; replico que talvez, por diminuta que era, tivesse apenas fixação em representar-lhe os pés, antes tão próximos de minha cabeça infantil.

Lembro-me de um outro tempo em que era palitos; foram substituídos por bolotas quando colegas cruéis me impuseram à mente o roliço de minhas formas aos 8 ou 9 anos, e cantavam-me baleia (rimando de forma infame com sacos de areia).

Foi quando decidi ver-me espelho que mais errei; surpreendia-me a cada dia uma pessoa diferente pela manhã e saudades dos velhos desenhos, que ao menos por alguns meses eram fiéis a si mesmos: os reflexos são vendidos aos humores de seus provocadores narcisistas.

Desisti não sei quando de representar-me; enfeito-me, apenas, de extremidades coloridas.

Domingo, Setembro 09, 2007

don't you know it's gonna be alright?

Atenho-me ao pouco de lógica que me sobra quando aceito que não escolherei jamais aqueles a quem dedicarei minha paixão pela humanidade. Fingindo racionalidade por questão de método, invento um modelo desses que já nascem mal das pernas e afirmo algo como que sou maximizadora de lucro emocional. Sob este aspecto, o problema estaria na receita esperada de cada relacionamento; difícil de impressionar, aviso logo. Por isso, encantam-me tanto os grandes potenciais que acabam por empalidecer qualquer custo que seja; não é por isso, contudo, que deixam de ser elevados, e isso não se pára de sentir, não, não.

Tentei revolucionar-me, julgando incoerentes tamanhos investimentos e decidindo por eliminar os mais vultuosos, por promissores que fossem (questão de aversão ao risco); descobri que não há tal coisa. Até pensei (orgulhosa de meu sucesso!) estar de fato selecionando minhas afeições quando percebi serem umas novas tão pouco emocionalmente custosas. Logo descobri, no entanto, que o acaso é que as havia escolhido para mim, como o fez a outras que os seguiram e continuaram a exigir-me os mesmos pagamentos exorbitantes. Entendi, finalmente, que não há vontade que dobre o curso da natureza humana; esta muda lenta e autônoma, ajusta-se apenas a si mesma.

Não existe revolução; há no máximo algo como impaciência. Temperamentos exaltados explodem em angústia abobada e ausência de significado, como bolhas emergindo vazias de suas convulsões. Confunde-se a transformação com seu anúncio estabanado e atribui-se-lhe a violência de uma única ação impetuosa: cultivo ocidental milenar do heroísmo meteórico.

Não existe revolução e isso é bom; houvesse, quantos não as tentariam, e quem são para decidir do que deve ser? O caminho se mostra a cada passo porque não há alternativa; note-se que o tempo é o único a bem suceder-se em suas imposições.